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sábado, 23 de dezembro de 2017

Servir a seu próprio gênio (Louis Lavelle)

Como evitar que as palavras de felicitações no Natal e Ano Novo - felicidade, amor, realizações, etc - se tornem apenas palavras gastas e vazias? O comprometimento em servir sua vocação, seu gênio, seu daimon, é uma das respostas. 

"Toda a infelicidade dos homens vem de que não existe nada mais difícil, para cada um deles, do que discernir seu próprio gênio. Quase todos o desconhecem, desconfiam dele, são ingratos para com ele. Empenham-se até em destruí-lo para colocar em seu lugar uma personalidade de empréstimo que lhes parece mais espetacular. Todo o segredo da potência e da alegria consiste em descobrir-se e em ser fiel a si mesmo, tanto nas menores coisas como nas maiores. Até na santidade, trata-se de realizar-se. Quem desempenha melhor o papel que é o seu, e que não pode ser desempenhado por nenhum outro, é também o mais afinado com a ordem universal: ninguém pode ser mais forte nem mais feliz.

Toda a nossa responsabilidade recai, portanto, sobre o uso das potências que nos pertencem, exclusivamente. Podemos deixar que se percam ou fazê-las frutificar. Assim, nossa vocação só pode ser mantida se permanecemos perpetuamente em seu nível, se nos mostramos sempre dignos dela. O papel de nossa vontade é mais modesto do que imaginamos; é apenas o de servir a nosso gênio, o de destruir diante dele os obstáculos que o freiam, o de fornecer-lhe incessantemente um novo alimento, e não o de modificar seu andamento natural nem o de imprimir-lhe uma direção escolhida por ela (a vontade).

Existe em todo homem um pensamento secreto que ele deve ter a probidade e a coragem de expor à luz do dia. Não deve preferir a ele uma opinião alheia que lhe pareça mais elevada, mas que, incapaz de se alimentar em seu próprio solo, nele não crescerá. Não podemos esperar possuir outras riquezas além das que já trazemos em nós. Basta explorá-las, em vez de negligenciá-las. Mas elas são familiares demais para que nos pareçam preciosas, e corremos atrás de outros bens que brilham mais e cuja posse nos é recusada. Mesmo que pudéssemos alcançá-los, não deixariam em nossas mãos nada além de sua sombra. 

No entanto, a confiança que se tem na própria vocação comporta, por sua vez, certos perigos. Minha vocação não está feita de antemão: cabe a mim fazê-la; preciso saber extrair de todos os possíveis que estão em mim o possível que devo ser. Também não devo confundir minha vocação com minhas preferências, embora minha preferência mais profunda deva afinar-se com minha vocação; nem o chamado de meu destino com todas as sugestões do momento, embora o momento sempre me proporcione a ocasião à qual devo responder. A sabedoria consiste em reconhecer a missão que só eu sou capaz de cumprir: pôr em seu lugar algum desígnio tomado de empréstimo é traí-la, assim como é traí-la alçar-me a pensamentos mais vastos que os que posso portar.

Ocorre com as vocações individuais, na vida da humanidade, o mesmo que ocorre com as diferentes faculdades, na vida da consciência. Cada faculdade - a inteligência, a sensibilidade ou o querer - deve exercer-se segundo sua lei própria, em sua hora e nas circunstâncias que convêm, caso contrário a consciência não conseguirá realizar sua harmonia nem sua unidade; mas, quando ela se exerce como se deve, é a alma inteira que age nela. Da mesma forma, o destino da humanidade inteira está presente na vocação de cada indivíduo, contanto que ele a aceite e a ame".

(Louis Lavelle, A consciência de si - 1933)

Reynolds - The Calling of Samuel (1776)



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sábado, 9 de dezembro de 2017

Você não é todo mundo



Quando você se justificava de um comportamento dizendo que "Todo mundo faz" e sua mãe respondia "Você não é todo mundo", ela estava lhe ensinando a coisa que, talvez, é a mais importante na vida: a autonomia ou individualidade moral, em oposição à coletivização.

A autonomia moral serve pra você tomar uma atitude que sente ser a mais adequada, a mais viva, a mais pedida por sua alma, a mais conforme ao SEU caminho, mesmo que para a coletividade ela pareça imprópria, imoral, antissocial. É o profeta Oseias casando com uma mulher de má fama porque foi a ordem de seu Deus.

A autonomia moral é também o que o leva a se privar de um modo de agir que é seguido por todos em volta, mas que para SEUS valores soa perigoso e prejudicial. É o profeta Elias se recusando a servir Baal.

Fazer reflexões éticas, sustentar a tensão da consciência entre duas opções e bancar aquilo que se escolhe, ter certa atitude crítica (que é diferente de criticismo ou de crítica no sentido marxista) e autocrítica (que é diferente de autoacusação neurótica) - tudo isso envolve uma mobilização psicológica considerável. Mas são condições para que uma pessoa seja realmente aquilo que ela é; sem isso, pelo menos metade do que é a vida humana lhe permanece como um grande salão fechado e cheio de teias de aranha. 

A dificuldade a que aludi pode fazer com que a pessoa apenas siga o fluxo do coletivo, daquilo que "todo mundo faz", sem uma verdadeira elaboração ética. É ser um fariseu - "alguém que é virtuoso por obediência à Grande Besta", no dizer de Simone Weil. Quando chega a hora de responder por suas ações diante do tribunal da realidade, a pessoa não conseguirá admitir eventuais erros. A falta de reflexão ética, de tensão moral e de espírito crítico, aliada ao próprio fato de ter entregue o leme de sua identidade ética à coletividade abstrata, deixa a pessoa incapaz de fazer a corajosa confrontação com sua consciência. Joga então a culpa no espectro coletivo, que a enfeitiçou e a fez agir como agiu. É assim que o desenvolvimento ético de muita gente pode não ultrapassar um nível pré-escolar.

Os nazistas, quando foram capturados e julgados após a guerra, repetiam: "Eu só estava seguindo ordens", "Era o que todos na Alemanha estavam fazendo". Políticos e empresários corruptos afirmam hoje que "É assim mesmo que o sistema funciona", "É o que todos fazem desde sempre" - e patrocinam artigos pretensamente filosóficos e sociológicos segundo os quais "a sociedade é que é corrupta", e que se você já furou fila, comprou CD pirata ou cometeu qualquer erro nessa vida ou em todas as encarnações passadas, não tem direito de reclamar da corrupção. Um ator acusado de assédio sexual desculpou-se atribuindo seu erro ao fato de ser "fruto de uma geração" para a qual certos abusos seriam aceitáveis. 

Há bons pensadores que detectaram esse fenômeno e fizeram os devidos alertas: Jung, Erich Neumann, Ortega y Gasset, e a já citada Simone Weil, entre outros. É bem conhecida a passagem de Jung:

O homem de hoje, que se volta para o ideal coletivo, faz de seu coração um antro de criminosos... Se a "adaptação" ao seu ambiente é normal, nem mesmo a maior infâmia de seu grupo o perturbará, contanto que a maioria dos companheiros esteja convencida da alta moralidade de sua organização social. 


Erich Neumann (História da origem da consciência, A nova ética) refere-se ao homem ético como não necessariamente aquele que é "bom", mas aquele que é consciente de suas ações e seus valores; ainda que faça o mal, o fará por escolha deliberada, e não como se estivesse contagiado de uma infecção coletiva propagada pelo ar e que "todo mundo" pegou.

O mal que age inconscientemente e irradia-se subterraneamente tem a eficácia perigosa da epidemia, ao passo que o mal feito conscientemente e assumido responsavelmente pelo ego não infecciona o entorno, mas se apresenta ao indivíduo como tarefa e como conteúdo a ser incorporado na vida e na formação da personalidade, assim como também todo outro conteúdo psíquico.
"Fazer o bem", como se entendia na velha ética, com a consequente repressão do mal e obediência à convenção, é frequentemente nada mais do que uma saída fácil, que evita o perigo e procura a segurança estabelecida. Todavia, "onde há perigo, também cresce o remédio" e a voz da nova ética, ou o que quer que seja, determina-se a aceitar o perigo e o remédio ao mesmo tempo, pois um não pode ser encontrado sem o outro. 

Simone Weil é bastante dura. Em Gravidade e Graça, ela chama a rendição da consciência à coletivização (que ela chama de "o social") de adoração à Grande Besta"Adorar a Grande Besta" - diz a nota de um editor seu - "é pensar e agir de acordo com os preconceitos e as reações da multidão em detrimento de toda busca pessoal da verdade e do bem". Ela se refere à ilustração feita por Platão (República, VI), dos sofistas que, para sua conveniência, apenas estudam a opinião corrente do povo e a adulam:

Todos esses doutores mercenários, que o povo denomina sofistas, não ensinam ideias distintas daquelas que o próprio povo professa nas suas assembleias, e é a isto que ousam chamar sabedoria. Da mesma forma de alguém que, após ter observado os movimentos instintivos e os apetites de uma grande besta feroz, por onde convém aproximar-se dela e tocá-la, quando e por que motivo se irrita ou amansa, que gritos costuma soltar em cada ocasião e que tom de voz a amansa ou enfurece, depois de ter aprendido tudo isto por intermédio de uma longa experiência, criasse uma arte e, havendo-a sistematizado numa espécie de ciência, passasse a ensiná-la, embora não soubesse realmente o que, nesses hábitos e apetites, é belo ou feio, bom ou mau, justo ou injusto; conformando-se no emprego destes termos aos instintos da grande besta; chamando bom ao que a agrada e mau ao que a importuna, sem poder legitimar de outra forma estes qualificativos... Um homem assim não te pareceria um estranho educador? Que diferença existe entre este homem e aquele que reduz sabedoria ao conhecimento dos sentimentos e gostos de uma multidão composta de indivíduos de toda espécie, quer se trate de pintura, música ou política? 

A filósofa francesa então analisa:

O acordo entre vários homens traz consigo um sentimento de realidade. Isso traz consigo também um senso de dever. Divergência, onde este acordo está em questão, aparece como um pecado... O estado de conformidade é uma imitação da graça.
O serviço do deus falso (da Besta social sob qualquer forma que seja) "purifica" o mal, eliminando o seu horror. Nada parece malvado para aqueles que a servem, exceto o fracasso em seu serviço.
Aqueles que pensam hoje que uma facção está do lado do bem, pensam também que este lado será vitorioso. Porque assistir um bem, amado como tal, sendo arrasado pela onda dos eventos, é um sofrimento intolerável. A ideia de que o que é bom possa deixar de existir é dolorosa e então a deixamos de lado. Isso é submissão à Grande Besta. 

Outra Grande Besta conhecida na literatura universal, e que certamente Simone Weil tinha em mente, é a Besta do Apocalipse. Na verdade, há duas Bestas no Apocalipse: a primeira que sobe do mar, e a segunda que sobe da terra. São adoradas com unanimidade pela massa; e a Segunda Besta "faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita ou nas suas frontes. E ninguém pode comprar nem vender senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da Besta, ou o número do seu nome" (Apocalipse 13:16-17). A absolutização daquilo que é relativo - em termos canônicos, a idolatria - faz o indivíduo nivelar sua ação (mão direita) e seu pensamento (fronte) à da massa indiscriminada de todas as classes sociais. Aliena-se e perde sua alma. Preteriu ser "um" por preferir ser "todo mundo".

Uma palavra final: como deve ter ficado claro, o passo adiante em relação ao coletivismo moral é o cultivo de uma ética própria e individualmente refletida, mas isso não significa o individualismo niilista - "faço tudo que me agrada, não estou nem aí para costumes ou regras, valores são só ilusões coletivas". Essa é uma reação inflacionária, ou seja, é o ego querendo "crescer e aparecer" - como um Nietzsche, um maio de 68, um outsider que gosta de chocar velhinhas. Diz Neumann: "Uma evolução ética progressiva do indivíduo deve levar em conta também a atuação sobre o coletivo que o seu comportamento ético provoca". O Homem é mais sábio que qualquer homem, então sim o consensus gentium, os costumes, as convenções, as crenças, devem ser levadas em conta - conforme Will Durant, "há algo desagradavelmente raso na sofisticação excêntrica; sugere inteligência sobre a parte e ignorância sobre o todo". No fim das contas, este individualismo patológico aponta para uma dependência excessiva do coletivo; a pessoa mantém sempre o coletivo em mente, pensando em como desafiá-lo e chocá-lo - o que é outra forma de condicionar-se não ao que a alma pede, mas à opinião da tribo. 

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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Catolicismo e Reforma em perspectiva (Will Durant)

Hoje faz 500 anos a Reforma Protestante. Em geral um movimento histórico não pode ser analisado unilateralmente como bom ou mau; quem bem situa a Reforma, o Catolicismo e o Protestantismo "em uma grande perspectiva da história e do pensamento modernos" é Will Durant em seu volume "A Reforma", que tem quase 1000 páginas sobre o assunto e compõe a coleção História da Civilização.

Na Introdução, Durant escreve: "É um assunto fascinante mas difícil, já que quase todas as palavras que se pode escrever sobre ele podem ser contestadas ou ofender. Eu tentei ser imparcial, embora saiba que o passado de um homem sempre colore seus pontos de vista, e que nada é tão irritante quanto a imparcialidade. O leitor deve ser avisado de que fui criado como católico fervoroso [Durant tornou-se agnóstico, mas no leito de morte solicitou os últimos sacramentos a um padre] e que mantenho lembranças agradecidas de devotados padres seculares e jesuítas eruditos, além de gentis freiras que lidavam tão pacientemente com minha juventude impetuosa. Mas deve notar também que eu desenvolvi grande parte da minha educação dando palestras por treze anos em uma igreja presbiteriana sob os auspícios tolerantes de protestantes notáveis como Jonathan C. Day, William Adams Brown, Henry Sloane Coffin e Edmund Chaffee; e que muitos dos meus ouvintes mais fiéis naquela igreja presbiteriana foram judeus cuja sede de educação e compreensão me deram novos insights sobre seu povo. Menos do que qualquer homem tenho eu desculpas pelo preconceito; e eu sinto por todos os credos a calorosa simpatia de alguém que aprendeu que mesmo a confiança na razão é uma fé precária, e que somos todos fragmentos de escuridão tateando pelo sol. Não sei mais sobre as coisas primeiras e últimas do que o engraxate mais simples das ruas". 

O que temos abaixo é um trecho do epílogo, em que catolicismo e protestantismo são encarados não de acordo com a suposta veracidade do credo, mas pela dimensão que vieram a tomar na história da humanidade.




O Renascimento e a Reforma são as duas primaveras da história moderna, fontes rivais do florescimento intelectual e moral da vida moderna. Os homens podem ser divididos por sua preferência e linhagem aqui - sua dívida consciente com o Renascimento por libertar a mente e embelezar a vida, ou sua gratidão à Reforma por avivar a crença religiosa e o sentido moral. O debate entre Erasmo e Lutero continuae continuará, pois, nessas grandes questões, a verdade que os homens podem alcançar é gerada pela união de opostos, e sempre sentirá seu duplo parentesco...


Fala o Catolicismo

O católico sinceramente fiel teve seu próprio argumento contra a Reforma. Ele também se ressentia dos dízimos, mas não conseguiria sonhar com a destruição da Igreja. Ele sabia muito bem que os monges às vezes fugiam do controle, mas ele sentia que deveria haver espaço e instituições no mundo para homens dedicados à contemplação, ao estudo e à oração. Ele aceitava todas as palavras da Bíblia com duas condições: que a lei de Cristo ab-rogara a lei de Moisés, e que a Igreja, fundada pelo Filho de Deus, tinha igual autoridade com a Bíblia, e deveria ter o direito final de interpretá-la e ajustá-la às mudanças das necessidades da vida. O que aconteceria se as passagens ambíguas e aparentemente contraditórias na Escritura fossem deixadas para a livre interpretação e julgamento do homem individual? Não seria a Bíblia despedaçada por mil mentes, e o cristianismo fragmentado em mil seitas beligerantes?

O católico moderno continua o argumento através de cada fase da vida moderna. "Sua ênfase na fé em detrimento das obras foi ruinosa e conduziu a uma religião cuja frieza de coração estava escondida atrás da piedade de sua fraseologia; por cem anos, a caridade quase morreu nos centros de sua vitória. Você acabou com o confessionário e gerou milhares de tensões na alma dos homens que lutam entre o instinto e a civilização, e agora você restabelece essa instituição de cura sob formas duvidosas. Você destruiu quase todas as escolas que estabelecemos, e enfraqueceu quase até a morte as universidades que a Igreja criou e desenvolveu. Seus próprios líderes admitem que sua ruptura com a fé levou a uma perigosa deterioração moral na Alemanha e na Inglaterra. Você levou a um caos de individualismo na moral, filosofia, indústria e governo. Tirou toda a alegria e beleza da religião, e preencheu com demonologia e terror; condenou multidões da humanidade à condenação como 'réprobos', e consolou alguns insolentes com o orgulho da 'eleição' e salvação. Obstou o crescimento da arte, e onde quer que tenha triunfado os estudos clássicos murcharam. Você expropriou a propriedade da Igreja para dá-la ao Estado e aos ricos, mas deixou os pobres mais pobres do que antes, e acrescentou desprezo à miséria. 

Você tolerou a usura e o capitalismo, mas privou os trabalhadores dos feriados repousantes que uma Igreja misericordiosa lhes havia dado. Você rejeitou o papado para exaltar o Estado; deu a príncipes egoístas o direito de determinar a religião dos seus súditos, e usar a religião como uma sanção para suas guerras. Você dividiu nação contra nação, e muitas nações e cidades contra si próprias; destruiu os controles morais internacionais que pairavam sobre os poderes nacionais, e criou um caos de estados-nações em guerra. Você negou a autoridade de uma Igreja fundada - como você mesmo admite - pelo Filho de Deus, mas sancionou a monarquia absoluta e exaltou o direito divino dos reis. 

Inadvertidamente, você destruiu o poder da Palavra, que é a única alternativa ao poder do dinheiro e da espada. Reivindicou o direito do julgamento particular (liberdade de consciência), mas negou isso aos outros assim que pôde; e sua recusa em tolerar a dissensão foi menos compreensiva que a nossa, pois nunca tínhamos defendido a tolerância - nenhum homem pode ser tolerante, exceto naquilo sobre o que ele é indiferente.

Enquanto isso, veja a que o seu julgamento particular levou. Todo homem se torna um papa e julga as doutrinas da religião antes que tenha idade suficiente para compreender as funções da religião na sociedade e na moral, e a necessidade humana de uma fé religiosa. Uma espécie de mania desintegrativa, livre de qualquer autoridade integradora, lança seus seguidores em tão absurdas e violentas disputas, que os homens começam a duvidar de toda a religião e o cristianismo em si seria dissolvido, e os homens ficariam espiritualmente nus diante da face da morte, não fosse a Igreja que permanece firme em meio a todas as flutuações de opinião e argumento, todas as modas da ciência e da filosofia, mantendo seu rebanho reunido até o tempo em que aqueles de vocês que vierem a compreender, e que forem realmente cristãos, submeterão o orgulho da sua individualidade e intelecto às necessidades religiosas da humanidade e voltarão para o único redil que pode preservar a religião apesar das ideologias blasfemas desta era infeliz." 

Responde o Protestantismo

Pode o protestante responder a esta acusação? "Não esqueçamos a causa da nossa divergência. Sua Igreja Católica tornou-se corrupta na prática e no pessoal; seus sacerdotes não cumpriam suas funções; seus bispos eram mundanos; seus papas eram o escândalo da cristandade - não são seus próprios historiadores que confessam isto? Homens honestos chamaram você a se reformar, enquanto mantiveram-se leais à Igreja; você prometeu e fingiu reformar-se, mas não o fez. Pelo contrário: queimou na estaca homens como Huss e Jerônimo de Praga porque eles clamaram pela Reforma. Mil esforços foram feitos para reformar a Igreja a partir de dentro; eles falharam até que nossa Reforma obrigou você a agir; e mesmo depois da nossa revolta o papa que tentou limpar a Igreja tornou-se motivo de riso em Roma. 

Você se orgulha de produzir o Renascimento, mas todos concordam que o Renascimento estava emanando tal imoralidade, violência e traição como a Europa não conhecera desde Nero; não estávamos em protesto contra esse paganismo, que se exibia até mesmo no Vaticano? Admitido que a moral declinou por um tempo depois que nossa Reforma começou - pois demorou-se a reconstrução de uma vida moral cujos fundamentos religiosos tinham decaído - em última análise a moralidade das terras protestantes se tornou muito superior à da França católica e da Itália. Devemos nosso despertar mental ao Renascimento, mas devemos nossa recuperação moral à Reforma; à libertação e integração do intelecto foi acrescentado o fortalecimento do caráter. Seu Renascimento era para a aristocracia e os intelectuais; desprezou a plebe e piscou o olho para os traficantes de indulgência e os monges exploradores da mitologia; não foi bom que esta extorsão grosseira das esperanças e medos humanos fosse desafiada? 

Rejeitamos as pinturas e estátuas com as quais você tinha adornado suas igrejas, porque você estava permitido que as pessoas adorassem as próprias imagens, como quando exigia que elas caíssem de joelhos diante das bonecas sagradas levadas em procissão pelas ruas. Nós ousamos basear nossa religião em uma forte e altiva fé, em vez de tentar dopar a mente das pessoas com a liturgia. 

Nós reconhecemos a autoridade secular como divina - o que seus próprios teólogos tinham feito antes de nós - porque a ordem social exige um governo respeitado. Rejeitamos a autoridade internacional dos papas somente após eles terem-na usado, de maneira flagrante, não para arbitrar a justiça entre as nações, mas para avançar com seus próprios interesses materiais. A incapacidade de seus papas egoístas em unificar a Europa para uma cruzada contra os turcos mostra que a desonestidade do papado havia quebrado a unidade da cristandade muito antes da Reforma. E embora apoiássemos o direito divino dos reis, também nós - na Inglaterra, Escócia, Suíça e América - favorecemos o desenvolvimento da democracia, enquanto seus sacerdotes na França, na Itália e na Espanha caminhavam com os reis; e nossa rebelião contra a autoridade da Igreja quebrou o feitiço do despotismo e preparou a Europa para questionar todos os absolutismos, religiosos ou seculares. 

Você presume que fizemos os pobres mais pobres. Mas isso também foi uma passagem, um estágio; o mesmo capitalismo que durante algum tempo explorou a pobreza também fez o homem comum mais rico do que nunca; e o padrão de vida é certamente mais alto na Inglaterra protestante, na Alemanha e na América do que na Itálica católica, na Espanha e na França. 

Se hoje você é mais forte do que ontem, é por nossa causa. O que, senão a Reforma, obrigou você a reformar a Cúria, a resgatar seu clero do concubinato, a assentar homens de religião - em vez de pagãos - na cadeira papal? A quem você deve que seu clero tenha hoje uma reputação de tão alta integridade? Ao Concílio de Trento. Mas a que se deveu o Concílio de Trento, senão à Reforma? Sem isso, perceba, sua Igreja poderia ter continuado sua degeneração do cristianismo ao paganismo, até seus papas serem entronizados sobre um mundo agnóstico e epicúreo. Mesmo com a regeneração a que forçamos a sua Igreja, os povos que aceitam seu credo são mais negligentes com a religião, mais céticos com o cristianismo, do que aqueles que adotaram a Reforma - compare a França com a Inglaterra. 

Aprendemos a conciliar nossa piedade com a liberdade da mente; e são nossas terras protestantes que viram a maior floração da ciência e da filosofia. Esperamos ajustar o nosso cristianismo ao progresso do conhecimento - mas como isso é possível para uma Igreja que rejeita toda a ciência dos últimos quatro séculos?"

Entra o Humanismo

Aqui, o humanista entra na discussão e baixa ambas as cristas. "Esta é a honra e a fraqueza do protestantismo: ele toca o intelecto, que está sempre mudando; e a força do catolicismo reside na sua recusa em se ajustar às teorias da ciência, que, conforme a experiência histórica, raramente sobrevivem ao século em que nascem. O catolicismo propõe-se a atender às exigências religiosas de um povo que mal ouviu falar de Copérnico e Darwin, e nunca ouvir sobre Spinoza e Kant; tais pessoas são muitas e são férteis. Mas como pode uma religião que fala para o intelecto, e se centraliza em torno do sermão, ajustar-se a um universo em expansão no qual o planeta que afirmou ter recebido o Filho de Deus tornou-se uma mancha transitória no espaço, e a espécie pela qual ele morreu é apenas um momento na fantasmagoria da vida? O que acontece com o protestantismo quando a Bíblia que ele tomou como a única e infalível base está sujeita a uma crítica superior que a transforma de palavra de Deus em literatura dos hebreus?...

A verdadeira disputa pela mente moderna não é entre catolicismo e protestantismo, nem entre Renascimento e Reforma; é entre cristianismo e iluminismo - essa era dificilmente datável que começa na Europa com Francis Bacon e empreende suas esperanças de raciocínio, ciência e filosofia. Como a arte foi a chave do Renascimento, e a religião foi a alma da Reforma, assim a ciência e a filosofia se tornaram as deidades do iluminismo. Desse ponto de vista, o Renascimento estava na linha direta do desenvolvimento mental europeu, e levou ao iluminismo e ao Aufklaerung; a Reforma foi um desvio dessa linha, uma rejeição da razão, uma reafirmação da fé medieval.

E, no entanto, apesar de sua intolerância original, a Reforma representou dois serviços ao iluminismo: quebrou a autoridade do dogma, gerando cem seitas que antes morreriam na fogueira e permitindo entre elas um debate tão viril que a razão finalmente foi reconhecida como a banca diante da qual todas as seitas teriam que defender sua causa, a menos que estivessem armadas com força física irresistível. Nesse argumento, nesse ataque e nessa defesa, todas as seitas saíram enfraquecidas, e também todos os dogmas; e um século após a exaltação de Lutero à fé, Francis Bacon proclamou que conhecimento é poder. Nesse mesmo século XVII, pensadores como Descartes, Hobbes, Spinoza e Locke ofereceram a filosofia como base - ou como substituto - para a religião. No décimo oitavo século, Helvetius, Holbach e La Mettrie proclamaram abertamente o ateísmo - e Voltaire foi chamado de fanático porque acreditava em Deus. Este foi o desafio que o cristianismo enfrentou, numa crise muito mais profunda do que o debate entre a versão católica e a versão protestante do credo medieval. 

O esforço do cristianismo para sobreviver a Copérnico e Darwin é o drama básico dos últimos trezentos anos. O que são as guerras dos Estados e as lutas de classes diante do Armagedom da alma?"

Conclusão

E agora, enquanto olhamos para trás sobre a narrativa sinuosa dessas milhares de páginas, percebemos que nossa simpatia pode ser oferecida a todos os combatentes. Nós podemos entender a ira de Lutero contra a corrupção e o domínio romano; a relutância dos príncipes alemães em ver as coletas do povo alemão engordarem a Itália; a resolução de Calvino e Knox em construírem comunidades morais modelos; o desejo de Henrique VIII por um herdeiro, e de autoridade em seu próprio domínio. 

Mas nós compreendemos, também, as esperanças de Erasmo por uma reforma que não tombasse a cristandade no ódio; e podemos sentir a consternação de devotos prelados romanos como Contarini diante do possível desmembramento de uma Igreja que por séculos tinha sido a enfermeira e a guardiã da civilização ocidental, e é ainda o mais forte baluarte contra a imoralidade, o caos e o desespero.

Nenhum desses esforços se perdeu. O indivíduo sucumbe, mas ele não morre se deixou algo para a humanidade. O protestantismo, com o tempo, ajudou a regenerar a vida moral da Europa, e a Igreja Católica purificou a si mesma em uma organização politicamente mais fraca, mais moralmente mais forte do que nunca. Uma lição surge por cima da fumaça da batalha: uma religião está em seu melhor lugar quando tem que enfrentar a concorrência; tende à intolerância e à corrupção quando e onde é incontestável e suprema. O maior presente da Reforma foi fornecer à Europa e à América essa competição de fés que demonstra o valor de cada uma, adverte-as à tolerância e dá a nossas mentes frágeis o sabor e o teste da liberdade. 

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sábado, 23 de setembro de 2017

Alguns substitutos do mestre espiritual (Jean Biès)

Traduzi este texto do filósofo francês Jean Biès (1933-2014), da Escola Tradicionalista, que está em "Princípios de alquimia interior", e desisti de publicá-lo. Esqueci do assunto e, alguns dias depois, tive um sonho em que apareceu o tema do "mestre espiritual". Após trabalhar com o sonho em análise, decidi publicar sim. 

"A verdadeira antropologia aplica-se ao conhecimento normativo e à ciência operativa. Por um lado, existe a compreensão e assimilação de estruturas e modalidades ontológicas da energética divina ao nível do universal e do humano; por outro lado, o uso de meios de metamorfose e da transmutação pessoal permite a morte do "velho homem" e o aparecimento do "novo homem". Depois de tomar consciência das condições do tempo em que se vive, e alcançar a revolução intelectual capaz de dar-lhe estruturas e princípios doutrinários baseados em philosophia perennis, o ocidental sedento de vida interior deve sequenciar essa formação teórica com um certo conjunto de práticas. São somente este aprendizado e esta vivência que, felizmente conjugados, permitem acessar uma espiritualidade que corresponde, ao mesmo tempo, a uma visão de mundo, um modo de vida, uma forma de ser, uma aristocracia não herdada pelo sangue, mas pelo sentido dado à vida.

(...) 

Todas as tradições insistem no caráter indispensável do mestre espiritual - essa partícula da Era de Ouro, perdida providencialmente na Era de Ferro - para quem quiser comprometer-se seriamente em uma forma de realização. Sozinho, o instrutor qualificado pode evitar que o discípulo caia nas armadilhas do subjetivismo, praticando exercícios descontrolados, sem saber, reforçando o ego em vez de superá-lo. Pensamos aqui nas palavras de Abu Yazid al-Bistammi: "Aquele que não possui um mestre espiritual, o satanás é seu mestre". Certamente, o esforço cai todo sobre o discípulo. "A libertação não pode ser obtida senão pelas palavras de um guru" (Yoga-Vishishtha, 6B. 197, 18). E, simultaneamente, "ninguém pode encontrar o Si-mesmo, sem primeiro ser ensinado por outro" (Katha-upanishad, 1, 2:8). Seria falso, por outro lado, idealizar o passado imaginando que os mestres eram numerosos e de fácil acesso. No século X, São Barnasufo não contava mais do que "três homens perfeitos diante de Deus", que superaram a medida humana e receberam o poder de "atar e desatar": João em Roma, Elias em Corinto, e um outro anônimo em Jerusalém. Várias narrativas referem-se a viagens distantes, às despesas de dinheiro e energia, aos testes a serem suportados, às falhas, às precauções contra impostores que enxameavam... No entanto, os mestres existiam; assim como uma certa atmosfera, impregnada de sua irradiação positiva.


"A visão do jovem Bartolomeu" - Mikhail Nesterov (1890)


Muito diferente é a situação de hoje.

Esse homem que, em qualquer sociedade tradicional, é aquele sem o qual a coerência interna e a ordem externa não podem durar muito tempo, é justamente o que não existe mais, o que se tornou tão raro a ponto de não parecer mais que uma espécie de mito. É esta carência fatal que aumenta o número de homens inquietos pelo futuro, aficcionados pelo espiritual, curiosos por um mundo de que não se fala, ansiosos por tocar suas margens, em busca destes guias sempre desejados e sempre ausentes. A "morte do mestre" não constitui somente uma dura prova; é um verdadeiro "teste iniciático" imposto aos homens de hoje por um mestre desconhecido. 

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Duas questões são colocadas aqui: por que a atual ausência de mestres? E, em tal, situação, o que fazer?

Podemos evocar como resposta à primeira questão a fase cíclica descendente, que sempre favorece um materialismo exacerbado; mas também perseguições de toda natureza exercidas sobre as comunidades espirituais, das quais a história contemporânea não retém oficialmente mais do que uma parte, e que necessariamente rarificaram o surgimento de personalidades eminentes. Nunca será possível avaliar com precisão os milhões de mártires dos totalitarismos do século XX: hassidim na Alemanha, cristãos orientais, budistas do Tibete e Vietnã, taoístas e confucionistas na China Popular, etc. Em segundo lugar, uma escola projetada inteiramente para guiar a consciência das novas gerações em um senso comum deliberadamente ateísta. Em suma, a decadência das virtudes espirituais de um homem que perdeu o "sentido metafísico", a sensibilidade gnóstica, e "cuja vida moderna destrói irremediavelmente os centros mais sutis, tornando-o incapaz de ouvir o ruído da grama crescendo". Em outras palavras, podemos dizer que, se não há mais mestres para falar, é simplesmente porque não há mais ninguém para ouvir.

Como resposta à segunda questão, podemos observar que a Sabedoria perene, ao trabalhar obstinadamente, rodeia obstáculos e nunca tem falta de invenções. Quando o mestre espiritual não está mais lá, o mestre interior intervém, assume o controle, recorre a outros modos de manifestação e ensino, estratagemas pedagógicos. Em seu poder inesgotável e criativo, envia aos homens substitutos para os professores. Vamos dar alguns exemplos desses substitutos.

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Os mestres estão realmente em toda parte ao nosso redor. 

Há lugares onde o Espírito sopra: lugares de lenda, lugares encantados onde algo se passa; pontos de convergência das correntes terrestres e celestes, dotados de uma qualidade vibratória particular, carregadas do que Rudolf Otto chama "o numinoso": Brocéliande, Delfos, Jerusalém, Athos, Benares, Chidambaram, o Fuji-Yama, Arunachala ("o próprio Shiva"). Mas mais simplesmente o túmulo de um sábio ao lado do qual meditar, um santuário montanhês, uma paisagem impregnada de beleza selvagem ou serena, que permite, no impulso de admiração que provoca, uma dilução do "eu" na natureza, incluindo a identificação do centro mais íntimo do ser com o centro do universo mesmo. Mais simplesmente ainda, um gabinete de reflexão onde se possa guardar silêncio, recobrar as forças, reunir-se, um oratório doméstico onde deixar as preocupações do dia, escapar da multidão de cuidados. Na medida em que tais lugares influem em nossas disposições interiores, as purificam, as pacificam, indiretamente desempenha, podemos dizer, o papel transformador que em outros tempos desempenhava o instrutor espiritual. 

upaguru mencionado no hinduísmo - e podemos adotar esta noção -, professores secundários e episódicos, capazes de nos ensinar algo por sua palavra, seu silêncio, seu comportamento. Todo ser emergido das profundezas do mundo ao nosso redor pode ser o portador de uma novidade para meditar, uma atitude para imitar ou para não imitar. "Tanto o homem bom quanto o mau são meus mestres", disse Confúcio; "um me mostra as virtudes a serem adquiridas, e o outro os vícios a serem corrigidos". O mesmo diz Ramana Maharshi: "Todo ser bom ou mal é um guru para cada um de nós. Os seres maus nos dizem por suas más ações: 'Não sejam como eu!'; e os bons seres nos dão seu exemplo".

upaguru pode aparecer sob um disfarce animal. Assim, nas parábolas do Evangelho, "as aves do céu que não semeiam nem colhem", a serpente e a pomba, os lobos e as ovelhas. Os animais do Tetramorfo - o touro, o leão e a águia - correspondem aos temperamentos dos diferente evangelistas, mas também simbolizam arquétipos celestes, os aspectos do Verbo. O Pânçatantra põe animais em cena com uma intenção pedagógica semelhante, porém menos metafísica do que moral. Quanto a Ittôryû, ele confia a um gato velho o cuidado de ensinar a "não-intencionalidade" na ação. 

upaguru também pode vir do reino vegetal, como os "lírios do campo que não tecem nem costuram". O que a árvore não nos ensina sobre a lentidão para crescer, assim como a cana sobre a flexibilidade a se adotar na tempestade? Todas as manifestações da natureza podem, em suma, nos ensinar, nos despertar para outra ordem de realidade. A visão das árvores lembrará o cristão da cruz, como as rochas o lembrarão daquela que obstruía o sepulcro, como os rios o lembrarão o Jordão, como a noite estrelada lembrarão a "escuridão mais do que luminosa" do Ser Supremo; e, o sol, o Espírito Trinitário (lemos em São Éfrem de Sírio: "uma imagem do Pai você tem no disco solar; do Filho, no seu brilho; do Espírito Santo, no seu calor, e no entanto tudo isso é um"). Cada elemento natural pode ser um memorial do divino, para aqueles que sabem como ver e lembrar, significando uma realidade mais ampla. "Podemos admitir", escreve Orígenes, "que esses seres, sementes, plantas, raízes ou animais têm como comissão levar a alma a contemplar as coisas celestes" (comentário ao Cântico dos Cânticos. Orígenes ainda afirma: "Tudo o que se vê está em relação com alguma coisa escondida, quer dizer, cada realidade visível é um símbolo e remete a uma realidade invisível à qual se refere". Poderíamos multiplicar as citações a partir de Platão, Hermes Trismegisto, Dionísio Aeropagita, até Joseph de Maistre, passando pela Cabala). Ao fazer o darshan, a reverente contemplação do mestre espiritual na Índia tradicional ou no Tibete, o asceta considera como seus mestres suas roupas, as cinzas com as quais ele se unta, o seu rosário. Na Vida de Milarepa, o discípulo de Marpa declara: "Este vaso de barro que era minha única riqueza, quebrando tornou-se meu guru, porque expressou um admirável discurso sobre impermanência". 

upaguru pode ainda ser apresentado como eventos que dão origem a uma lição, um questionamento, uma reflexão sobre a série de causas e suas consequências. Esse evento me permite observar o modo como me comporto com relação a ele, medir meu grau de paciência ou desapego, de consentimento ao destino... Se os acontecimentos, felizes ou desgraçados, não nos dão a sabedoria, nos dão essa experiência que é como seu prólogo. 

Podemos objetar que o upaguru oferece um aspecto limitado ou insuficiente, que é alimento para os pobres. Mas isso seria esquecer que os homens de hoje são espiritualmente subdesenvolvidos; eles precisam de pratos simples e facilmente digeríveis... Por outro lado, eles são tão triviais quanto parece? Não é abusivo sustentar que tudo pode revelar-se como nosso mestre, que na fugacidade de suas aparições o guru é onipresente, e que a época em que vivemos, tão fecunda em sofrimento, dificuldades, complicações, não usurpa o papel de mestre, ao desempenhá-lo. O mestre, com efeito, não faz nada para facilitar a tarefa do discípulo. É nesse sentido que se pode compreender a frase de Sri Aurobindo: "toda a vida é yoga".

Na medida em que são o eco fiel dos ensinamentos iniciáticos, certas obras básicas também podem aspirar ao mesmo papel. Em tal ou tal livro de predileção, o autor do livro nos fala desde os séculos, através dos sinais da escrita. Sem dúvida, nunca saberemos nada sobre o som de sua voz, os gestos de seu rosto; sem dúvida, daquilo que ele era, não resta mais do que um pó disperso sobre o oceano molecular do devir. Mas é melhor desta maneira: da mensagem enviada só subsiste o essencial. O mensageiro, se ele nos escapa, faz evitar todo afeto sentimental e os dramas que acompanham o desaparecimento físico do mestre.

Estas obras estão em condições de abastecer um conjunto de argumentos metafísicos indiscutíveis frente às filosofias do absurdo, da rebelião e do nada impostos por todas as partes e oficialmente a uma juventude privada de todo argumento contrário; em condições de desenvolver uma mentalidade simbolista, de dar um justo lugar aos ensinamentos satirizados e ocultados. 



Embora os "gurus de bolso" sejam considerados insuficientes, eles não são menos carregados com um número imponente de perspectivas, reflexões, explicações, que excedem o que é possível gravar e realizar em uma vida humana, e sua ruminação contribui grandemente para as primeiras mudanças de mentalidade. Sabemos, além disso, que para o esoterismo hebraico, por exemplo, a Torah - que pré-existia à Criação e é confundida com a Sophia eterna - não é apenas um volume sagrado: inclui em suas letras o poder divino; é, na sua essência, uma concentração do Nome de Yaveh, cuja transcendência percorre, visita, impregna o texto, assim como impregna o mestre espiritual. De acordo com a tradição chinesa, os hexagramas do I-Ching atuam como "pais", isto é, mestres. O oráculo alega facilitar ao consultor uma resposta sem mentira, um conselho, uma confirmação, convidando-o para a flexibilidade, a disponibilidade, a mudança de aparência, para "vir", para a adesão ao presente; e isso sem nunca pressioná-lo. Não vemos que o guia espiritual funcione de maneira diferente com o discípulo, nem que lhe ensine algo a mais do que isso.

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Mas os mestres também estão em nós.

Assim é com certos princípios da vida, como o yama-niyama do hinduísmo, aplicável aos ocidentais: a não-violência, que consiste em não prejudicar qualquer criatura; a abstenção do roubo e da mentira sob qualquer forma; a abstenção de tudo que não é indispensável para a existência; o desinteresse pela ação, agindo sem esperar nada em troca e como oferecimento ao divino; a aceitação da providência e do destino, mesmo que sejam aparentemente caprichosos ou incompreensíveis; o estudo das Escrituras e a obediência aos seus preceitos; uma confiança inabalável no sagrado, tomado como o eixo imutável de toda nossa vida, quaisquer que sejam as situações com as quais somos confrontados. Certamente não é possível, nas condições do mundo presente e tendo em conta a "fraqueza" do homem moderno, satisfazer ao mesmo tempo e plenamente todas essas exigências. Mas é possível adaptá-las e assimilar certas partes, de acordo com as circunstâncias do momento e as possibilidades de cada um.

Quanto ao dharma, ele designa conformidade com nossa natureza profunda. Tender o máximo possível para a perfeição deste estado, é realizar "isso" para o qual se foi feito e que corresponde a uma vocação irresistível, a uma atividade soberana a se cumprir, à qual dedicar seu ser. Então, apontando para mim o que devo fazer, o dharma me indica ao mesmo tempo o que sou, e é por essa razão que ele merece ser considerado como um mestre espiritual. É necessário, por outro lado, adicionar os ritos, consumados em momentos simétricos do dia e em lugares fixos. A atenção que se dedica a isso, a obediência e regularidade que exigem, desabrocham as "virtudes" que o mestre também faria desabrochar, e, como ele, contribuem para sanear quem os pratica, o ajudam a encontrar seu centro, regulam os "sopros" e os "ritmos" da sua vida. 

Emissários do mestre interior, certos sonhos transmitem suas mensagens, suas consignas; nos revelam aspectos desconhecidos de nós mesmos, nos dão diretivas, nos avisam do futuro. Privados de todo artifício, nos dizem o que é, nos colocam nus na nossa própria frente.

A interpretação e amplificação dos sonhos, como se pratica na psicologia analítica, extrairão seu conteúdo e o estenderão até as dimensões de verdadeiros mitos pessoais. Inaugurarão este "trabalho sobre o inconsciente" que provoca o recolhimento das projeções, a reconciliação dos pólos opostos, a obtenção de uma unidade interior; farão mudar a atitude em relação a si mesmo e, portanto, em relação aos outros; melhorarão a qualidade do tecido existencial, sobrepassarão os determinismos. Seria difícil, se não impossível, completar este trabalho sozinho. O terapeuta ligado a uma fonte espiritual ajudará aqui. Mas ele não é, portanto, um "vivente liberado"; serão os sonhos que permanecerão aqui os verdadeiros representantes do mestre, do qual o analista não é mais do que um intérprete. 

Se os sonhos são as ondas de fundo do oceano psíquico, as sincronicidades são como seus salpicos. Eles tecem toda uma rede de "coincidências significativas" entre o estado de dentro e o fenômeno de fora, de signos muitas vezes imperceptíveis que é bom levar em conta. Sua brusquidão nos surpreende, chama a atenção para detalhes que, de outra forma, seriam insignificantes. A exemplo do mestre, religam nosso centro ao Todo, e nos religam a nós mesmos; colocam ao reverso este universo para fazer descobrir o anverso; um universo arquitetado; são a elevação do mundo arquetípico.

Como as tradições mais diversas incluem sua repetição ritual, o Nome divino é outra manifestação do mestre espiritual. É mesmo uma expressão essencial. No cristianismo, a invocação do Nome de Cristo, fundado na respiração e na concentração do espírito, não tem tanto valor mágico ou mântrico, assim como não tem um aspecto metafísico supereminente. Ele estabelece um relacionamento com o "Mestre Interior", pede ajuda, desperta a Presença Trinitária, faz o homem respirar no Espírito até revelar a cor de safira do "Lugar de Deus". (Evágrio Pôntico: "Quando o espírito, havendo despojado o velho homem, reveste o homem da graça, então verá seu próprio estado, no momento da oração, semelhante à cor de safira ou do céu, o que a Escritura chama o "lugar de Deus", que foi visto pelos antigos sobre a montanha do Sinai". Sabemos a correlação que existe entre a safira e a Sefirah). 

Esta alquimia espiritual determina um estado de consciência que, pela reprodução das mesmas sonoridades, tende a adormecer as funções mentais, as paixões em efervescência, a liquefazer as resistências à Graça desenvolvendo um certo clima de emotividade, a aliviar o karma, já que o tempo dedicado à oração onomástica suspende a ação, santifica-a, reintegra o homem em sua essência ontológica de que não está separado senão em uma modalidade ilusória. A invocação do Nome devolve ao homem moderno, disperso e instável, a segurança de uma estabilidade, uma referência à axialidade daquilo que o Nome representa; e isto apesar dos azares de uma existência constantemente transtornada, das incertezas, das provas. É praticável em qualquer lugar, a qualquer momento, em qualquer circunstância. Na solidão mais completa, na devastação abissal, no coração da clandestinidade, é a única realidade que resiste e atravessa, a única riqueza da qual ninguém pode espoliar-nos. Sob seu aspecto simplista, é o método espiritual que melhor convém ao homem dos epílogos cíclicos. Por fim, prepara metodicamente para a "grande passagem". Já se disse, com efeito, que o homem obtém o estado póstumo correlato àquele em que se encontrava in articulo mortis. Concentrar-se então sobre a recordação dos Nomes é o melhor meio, e o único restante, para alcançar a estância suprema. Convém ainda, para ter este último "reflexo", esta "presença de alma", ter treinado muito tempo, antes, na recordação divina. 

Acompanhando a invocação da memória, a contemplação das letras do Nome, no Islam por exemplo, ou dos ícones de Cristo e sua Mãe, na Ortodoxia, constituem um aditivo precioso. Esta síntese da arte visual dos citadinos e da arte auditiva dos nômades lembra ao orante que ele deve estabelecer sua fixidez no infinito; introduz uma recapitulação da história humana em cada homem. Mostrando a Face a partir da qual o Nome é proferido, esse método ajuda o homem a "tornar-se". A graça incluída no rosto divino passa adiante daquele que adora e venera não uma tábua pintada de madeira, nem ainda uma imagem - o que seria idolatria - e sim a essência que se transmite através do "jejum dos olhos" (Recordemos, se é isto necessário, que o ícone está justificado pela Encarnação, que faz irradiar as energias divinas até da matéria. "Não venero a matéria, e sim venero o Criador da matéria que para mim se fez matéria". Esta frase de João Damasceno resume toda a atitude ortodoxa e toda a "teologia do ícone" frente aos iconoclastas). "Manifestação visível do Invisível", o ícone participa do mistério teândrico; lugar da "Presença Real", manifesta e atualiza o Divino para transfigurar o humano; acostuma a visão da Luz da Glória; "Tudo se manifesta pela luz" (Efésios V. 13); e inicia na aprendizagem da visão do século vindouro. Por estas razões diversas, o ícone equivale, podemos dizer, ao papel do mestre, do qual os discípulos pedem piedosamente o darshan




Exatamente como o próprio Nome, que contribui para a nossa Libertação, assume este papel de forma excelente. "Deus e Seu Nome são idênticos", disse Ramakrishna. Então, Deus é o Mestre dos mestres, e os seres humanos são seus "substitutos". O "Mestre do Nome" (Baal Shem), enquanto aquele que invoca o Nome do Ser de quem todos os seres procedem, descobre neste Nome seu Mestre. Em outros termos, se o Nome de Deus se iguala a Deus, e se Deus é o Mestre por excelência, é justo concluir que o Nome se iguala ao Mestre. Ainda podemos dizer, em uma perspectiva complementar da precedente, que invocar o Nome é identificar-se ao Nome, e que identificar-se ao Nome é identificar-se com Deus, quer dizer, deificar-se. Há que precisar-se enfim que, à medida em que cada cristão é em potência um "filho de Deus", o nome de Cristo também é, virtualmente, o nome de cada cristão, um outro pólo eterno e indissociável de Deus Padre. "Santificado seja teu nome" equivale então ao "meu Nome" (com o fim de voltar a ser Deus em Ti)¹. (¹ Sabemos que em hebraico o Nome do Pai é o Tetragrammaton YHWH, o do Filho é YHSbWH - Yeshouaï -, o shin intercalado demonstrando a maestria das energias divinas, cósmicas e humanas, a atividade vivificadora universal, a natureza teândrica do Amigo de Deus). 

A busca de mestres espirituais mantém toda sua legitimidade; o fato de que estão escondidos ou ocultos não significa que eles não existam. Não é menos verdade que esta busca inclui um número óbvio de dificuldades hoje, sem garantia de sucesso. Sabemos, por outro lado, que o mestre está presente apenas quando o discípulo está pronto, no momento conveniente e justo, que escapa a nossos cálculos e em certo aspecto pode ser inesperado ou desconcertante. Se não aparecer, o melhor é dizer que não o fez, e isto, por razões que lhe concernem e que não nos é lícito adivinhar. Aceitar que seja assim pode ser a ascese que nos é pedida por hora. O "deserto interior" aparece como uma situação de espera, uma purificação, um período probatório de valor positivo - "não há que se dormir durante esse tempo" - bastante semelhante à retirada momentânea de Deus, que apenas os homens sem fé - nem Lei - tomam por sua morte". 


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domingo, 13 de agosto de 2017

Peregrinar


Você já sentiu, em algum momento da vida, um ímpeto de sair andando; andar, andar, andar, sem rumo, sem roteiro, quanto mais longe melhor, seja na cidade, nas estradas, no mato? 

É algo que acontece com idosos em estado demencial e com indigentes de rua, mas também com jovens e pessoas de meia-idade razoavelmente estabelecidos em termos materiais. É um andar que não é por preocupações com a saúde, por consciência fitness ou por mera necessidade física; há uma energia do corpo e da alma, quase uma urgência espiritual, que faz sair e andar.

Penso que quando tomada por esta energia e esta necessidade, a pessoa está respondendo a uma experiência ancestral da alma humana; uma experiência que pode ser compartilhada universalmente e atemporalmente - a experiência do peregrino, da jornada, do andarilho, do nômade. Nem todos passarão por isso, mas aqueles que passarem estarão em contato com o mesmo ímpeto que moveu santos, sábios, heróis e pessoas comuns que se dispuseram a um encontro consigo e com o Sagrado no ato de perambular. 

A peregrinação como uma experiência arquetípica foi estudada pelo casal Wallace B. Clift e Jean D. Clift. Eles se basearam na teoria junguiana dos arquétipos para apreciar a peregrinação - o "andar" como busca moral e espiritual - e ver nela um rito em que "cada movimento torna-se um símbolo-em-ação que faz aparecer o poder do mundo interior numa forma visível e física". Infelizmente ainda não li no original a obra do casal (não traduzida para o português e pouco disponível para aquisição em inglês), de modo que as referências que trago são do artigo de Ângelo Cardita (2012), Peregrinação: possibilidade de compreensão crítica de uma experiência

A palavra "peregrinação" e o ato de peregrinar é associado frequentemente, não sem razão, às religiões. No Cristianismo, a peregrinação é uma prática devocional que remonta pelo menos ao século IV, com os conversos visitando os locais relacionados à vida de Cristo. Durante a Idade Média, desenvolveu-se a ideia da peregrinação como penitência pelos pecados ou pagamento de promessas; e, hoje, sobrevive com força a peregrinação a Roma para audiência do Papa, e para locais onde ocorreram aparições da Virgem e dos santos e que concentram históricos de curas e milagres, como Fátima e Lourdes. Todos conhecem, além disso, o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, em que os devotos se absorvem como num retiro espiritual para reflexão, meditação e oração. No Brasil, há Aparecida do Norte e há Juazeiro do Norte; há Nova Trento, em Santa Catarina, onde fica o santuário de Madre Paulina, e há vários outros pontos secundários em afluência, especialmente no nordeste do país, ligados às devoções populares sancionadas ou não pela Igreja. 

Como destaca o casal Clift, a peregrinação tem - como qualquer arquétipo - uma zona sombria, "onde reside a possibilidade de perversão (...) Preconceitos religiosos, nacionais, étnicos, mas também idolatria, comércio, fetichismo (relíquias) são, portanto, alguns dos aspectos negativos que o reconhecimento de uma intenção de entrar em contato com o transcendente não pode ocultar" (Cardita). Isso motivou as críticas de Lutero e outros reformadores, e de certo modo desvinculou a tradição protestante da peregrinação devocional. Mas o que são as famosas caravanas que se fazem hoje nas igrejas evangélicas, em direção a seus principais templos? Não são simples viagens; são experiências de viagem com recolhimento, oração fervorosa, preparo espiritual - não se foge facilmente do arquétipo. 

Reconhecemos com maior facilidade a peregrinação cristã, pelo simples fato de estarmos em uma cultura de tradição cristã. Com outras religiões, entretanto, não é diferente - e pode receber atenção ainda maior que no Catolicismo. Os hindus são peregrinadores natos, e seus destinos de peregrinação incluem determinadas montanhas, florestas, rios, lagos, praias, sítios sagrados, residências de personalidades eminentes ou locais onde há sadhus ou gurus sepultados (sim; em geral, no Hinduísmo, as pessoas são cremadas, mas os grandes mestres e santos são enterrados). O maior momento de peregrinação é o Kumbhamela, um festival que acontece a cada três anos - alternadamente em Prayaga (Allahabad), Hadwar, Ujjain e Nasik - recebendo dezenas de milhões de peregrinos. Os sastras (Escrituras) recomendam a viagem a pé como mais meritória, decrescendo-se o mérito quanto mais confortável for o meio de transporte utilizado. Adverte-se, porém, que a peregrinação não deve ser encarada meramente do ponto de vista exterior: "Aquele que pensa que o corpo é o eu; que a sua terra natal é adorável; que a relação com esposa, parentes e amigos é eterna; que peregrinação serve simplesmente para banhar-se em um lugar diferente, não é melhor que um burro ou uma vaca". O que o peregrino deveria ter em mente ao fazer sua jornada é a oportunidade de um darshan (encontro, contemplação, visualização) com os santos e pessoas sábias que residem nos lugares de peregrinação. 



Para não nos estendermos nos exemplos, apenas lembremos que os muçulmanos têm como dever religioso fazer uma peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida - experiência em que todos utilizam vestes brancas especiais, que ressaltam a igualdade dos peregrinos aos olhos de Deus. Judeus peregrinam a Jerusalém desde os tempos bíblicos, e ainda hoje encaram como uma experiência preciosa a visitação ao Muro das Lamentações, resquício do Templo. Peregrinam ainda aos túmulos de tzadikim (santos) localizados tanto na Terra Santa quanto em outros países ocidentais e orientais. No Sikhismo, há vários versículos do Guru Granth Sahib que parecem depreciar a peregrinação; mesmo assim, o belíssimo Templo Dourado em Amritsar é um centro para onde afluem aos milhões os sikhs da Índia e do mundo todo. Budistas, bahaístas, Hare Krishna, zoroastrianos, todos têm seus ritos de peregrinação e destinos preferidos e secundários. Visitando estes locais, os fiéis mantêm-se unidos à história da religião e, de acordo com cada crença, à "energia" ou atmosfera sagrada presente nestes lugares, às vezes venerados como pontos de contato entre a Terra e o mundo espiritual. Evidentemente, hoje em dia nem todas estas viagens são feitas integralmente a pé; mas o componente da caminhada é muito presente e parece ser ubíqua a ideia de que as dificuldades de acesso, a fadiga e o desgaste são parte da experiência e, quanto mais intensos, mais a enriquecem. 

A importância dada pela alma humana à visitação de locais importantes - e, mais que isso, ao processo de deslocamento até lá - sobrevive à secularização. Você vê as pessoas ligadas a alguma ideologia política ou simpatizantes de algum momento histórico empreendendo esforços para visitar locais relevantes a estas ideologias ou eventos (túmulo de Lênin, museus do Holocausto); e vê os outsiders largarem tudo para viverem aventuras de autoconhecimento e renascimento pessoal - seja andando de moto pelos Estados Unidos, mochilando na Europa ou passando dias em ônibus no interior do Brasil. 

Claro que muitas vezes a peregrinação se mistura com o turismo, ou mesmo é executada sem um estado de espírito que identificaria uma real experiência numinosa, sagrada. Um sujeito pode ir para Fátima, Jerusalém ou o Nepal como consumidor ou com o roteiro e todos os detalhes tão bem definidos, controlados, que dificilmente falaríamos em verdadeira jornada espiritual. Isso tende a se acentuar quanto mais a peregrinação for a participação em um passatempo coletivo ou uma obrigação litúrgica, do que uma busca interior, uma necessidade imperiosa da alma. Em todas as religiões há esse risco - o de que a coletivização das práticas implique em estandardização e, portanto, pouco o nenhum proveito para a transformação individual. 

Os Clift incluem na sua abordagem da peregrinação os destinos puramente seculares, mas distinguem o turista do peregrino pela capacidade deste último em "relacionar a experiência com um mais amplo marco de sentido". Segundo Cardita, os Clift apontam como algumas dimensões da experiência arquetípica da peregrinação:

1. A experiência do abandono (deixar algo para trás);

2. A experiência do dom (voltar para casa trazendo algo consigo);

3. O sentido de uma presença (o encontro com "algo" no lugar visitado);

4. As dificuldades de acesso, "que expressam, a nível do inconsciente, o crescimento envolvido em qualquer mudança na vida, a saída do lugar que se ocupa".

A peregrinação, então, é uma forma de iniciação; a consciência conecta-se com realidades supra-pessoais e atemporais, e com essa experiência mágica é ampliada. 

Mas voltando ao início deste ensaio, o que toda essa conversa sobre jornadas a Lourdes e ao Ganges tem a ver com o impulso que um ocidental anônimo e não necessariamente religioso sente para sair de casa e andar, andar, andar, como um Forrest Gump em marcha lenta? 

Acredito que tenha tudo a ver. Quem é tomado pelo daimon do "andar" está experimentando a mesma necessidade dos primeiros indivíduos que pavimentaram a rota de Santiago de Compostela, que viram a importância e estabeleceram a necessidade da visitação a Meca, que escreveram em escrituras milenares sobre os méritos destas viagens dolorosas - porque feitas de calos nos pés; silenciosas - porque feitas de recolhimento; numinosas - porque feitas de entrega. Então querem sair e andar até o corpo cansar, até a mente se limpar de todas as preocupações que os afligiam, até se perderem num roteiro não definido, que "se faz ao caminhar" e que dá a sensação de que, mais do que o ego no controle, há toda uma porção de nós que é mais sábia e mais profunda, que instintivamente "sabe" o melhor caminho. Na falta de Santiago - ou porque as ruas de sua cidade, as estradas de seu país e os labirintos de seu coração terão mais significado do que Santiago - o indivíduo sai afoito, aflito; horas, ou dias, ou meses, empenhado em perambular.

Não é propriamente prazeroso este perambular - é um andar com angústia, a angústia da busca, a angústia da forja da alma. Para uma parcela dos acometidos por esta necessidade de peregrinar, possivelmente o arquétipo será experimentado como uma compulsão por andar, resultando talvez em pouco proveito existencial e mesmo em riscos à segurança e perigos de vida. A mente, nessa compulsão, vai variar entre a turbulência, a confusão, a falta de sentido, a inquietação. 

É bem possível que, sem maiores esclarecimentos sobre a raiz psicológica da compulsão por caminhar, a pessoa experimente, em suas andanças, aquela explosão de sensações e emoções transformadoras. Apesar disso, eu entendo que apresentando esta compulsão como a expressão de uma inquietude que, em sua raiz, não é tola nem patológica, os incorrigíveis andantes podem tomar consciência do que os move e ser tomados de veneração pelo fenômeno que não surge deles, e sim se apropria deles para manifestar-se: o fenômeno da jornada humana feito carne, feito pernas e pés

Os filósofos antigos, peripatéticos, filosofavam caminhando. Rousseau, que deu a um de seus títulos "Os devaneios do caminhante solitário" disse que "Só consigo meditar enquanto caminho. Minha mente trabalha junto com as minhas pernas". E de Nietzsche conhecemos o aforismo: "Os grandes pensamentos resultam da caminhada". Mesmo assim, a vivência mágica experimentada ao peregrinar ou flanar por aí talvez não seja propriamente um efeito da caminhada, da movimentação física. Um processo que está ocorrendo "dentro", de transformação da psique, talvez precise para sua plena manifestação de um processo que o simbolize externamente, "fora". Aí vem a andança, a jornada, a viagem, e tudo se combina e explode em uma mudança na personalidade. Lembremos dos chineses: seu Tao, o Símbolo do processo eterno do universo, quer dizer "caminho". E - diz Jung - "personalidade é Tao". Caminhar.

É oportuno agora ouvir o Coro dos Peregrinos, essa beleza de Wagner (em três versões ótimas - a clássica, em acordeon e em violão). 









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